Porto Portal
NOSSA HISTÓRIA, NOSSA GENTE.
PORTOPORTAL.COM.BR
  Brasil  Porto Ferreira - SP
HomeHistoriadorEnviar MatériasArquivos Contato

O PALHAÇO CHOROU...

 

Corria célere a notícia e de repente toda a cidade já sabia...

O circo chegou, ouvia-se em todo canto e a garotada já rodeava o local onde chegavam caminhões carregados com tanta coisa que nos punha ainda mais curiosos, por querer saber para que servia.

Era sempre um imenso quebra-cabeça que logo logo ia se formando, fazendo brilhar mais ainda nossos olhos espertos de menino.

O terreno começava a ser preparado e ia engrossando o vai-e-vem de homens que ofereciam seus serviços para ajudar na armação.

Como num passe de mágica, toda população era atraída, não dando a menor importância se o circo era luxuoso, colossal ou mambembe. O importante era sua estréia, que seria no sábado, quando sua porta ficava toda iluminada.

De longe já se ouvia a picareta e o enxadão, batendo o chão duro, abrindo os buracos para as arquibancadas, obedecendo as ordens do sisudo e gritalhão capataz que havia chegado no primeiro caminhão.

Aquele amontoado de madeira, rapidamente ia se transformando em picadeiro, barracas, acomodações, camarotes que seriam reservados às autoridades e convidados especiais e, finalmente, era construído o grande palco, onde iria acontecer a comédia e o trágico, que tanto encantavam, provocando risos e lágrimas em noites inesquecíveis.

Homens bronzeados, suando por todos os poros, puxavam firme as grossas cordas, levantando os mastros que, seguros por cabos de aço, sustentavam o enorme pano de gomos coloridos, despertando indescritível fascínio e tantos sonhos em nossa cabecinha de menino.

A gente assistia a tudo sem dar conta do tempo que passava e finalmente estava ali, parecendo surgir por encanto aquela casa onde se fabricavam ilusões.

"Hoje tem goiabada?

Tem sim senhor.

Hoje tem marmelada?

Tem sim senhor.

O palhaço o que é?

É ladrão de muié"

Eram os moleques que passavam anunciando a função, acompanhando a folia do homem Perna de Pau.

Em suas testas eram feitas uma cruz com cinza ou carvão, que dava direito a entrar de graça, como pagamento do trabalho de divulgação.

Todo cuidado era pouco na hora de tomar banho. Se por descuido fosse lavada a marca da testa, adeus entrada grátis. Por segurança, era bom não tomar banho, só lavar os pés.

Já à noitinha, dezenas de ambulantes tinham armado seus tabuleiros de doces, ou haviam estacionado seus carrinhos de pipoca ou café, chocolate e quentão.

Enormes filas se formavam em frente às bilheterias e nossa preocupação era varar por debaixo do pano, logo ao sinal de um amigo, depois de ter passado por ali o homem que fazia a ronda.

Já lá dentro, depois de ter saído debaixo das arquibancadas e a certeza de não ter sido visto na arriscada aventura, era só sentar e assistir a entrada do Palhaço, que escancarava a boca, pulava, cantava, causando gargalhadas, e contava casos que no outro dia eram repetidos e comentados em toda cidade.

Cambalhotas, malabarismos, trapezistas e o coelho saindo da cartola, numa seqüência de surpresas e emoções no primeiro espetáculo da temporada, repetindo-se por algumas semanas até o dia em que uma grande tristeza e enorme vazio eram sentidos por todos... na hora da despedida.

As pessoas do circo faziam muitas amizades, arrumavam aqui comadres e compadres, deixando muita saudade.

Muitas vezes voltavam...

Depois de correr por esse Brasil, um dia estava voltando à cidade um dos circos que mais havíamos gravado na memória, por suas apresentações e recíproca estima de artistas e ferreirenses.

Era o Circo Nogueira, do velho Dario e família.

Mesmo tendo passado tantos anos, lembro-me que aconteceu em meados de abril de 1960.

Foi armado no Buracão e a grande atração era o Palhaço Cantor Wilson Nogueira, que conhecia nossa gente até por apelidos, e era um sarro quando falava de um pequeno bar, perto do velho cemitério, que funcionava num apertado salãozinho que, embora fechado, ainda existe perto da Borracharia do Goiaba. Era o famoso "Bar das Almas", que ele também chamava de "último gole", causando muitos risos.

No dia do tão esperado espetáculo do Circo Nogueira, um violento temporal causador de muitos danos em nossa cidade, também fez vir abaixo o pequeno circo.

Foi aquela correria de gente querendo ajudar ou saber o que havia acontecido.

No meio das arquibancadas ali jogadas e da lona antes tão bonita, vimos o Wilson Nogueira em desespero, ajoelhado, com o rosto apertado entre as mãos, querendo saber o porquê de tudo aquilo.

Parei, sentei com ele no meio de seu mundo ali caído e chorei com o querido Palhaço, que a gente pensava que só sabia sorrir...
Topo
Próxima
Próxima
Historiador | Enviar Matérias | Contato
© Copyright by tutti
2004 / 2011
Byt3 Propaganda